quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Sapatos e papéis (terceira parte - final)

(caio silveira ramos)

Minha mãe sempre soube o feitiço certo para anzolar criança na leitura.
Não se sabe como ela descobriu uns livros grandes e finos, de bordas onduladas e capas instigantes: dentro de cada um deles, gravuras coloridas e curiosas (sempre socorridas por frases curtas escritas com letras também grandes e em negrito) contavam histórias que eram lidas uma, duas, dez milhões de vezes. Como aquela do porquinho e do coelho que entravam em um castelo assombrado por um fantasma, que no final se revelava um lobo escondido sob um lençol. Ou a do posto de gasolina que na última página ia pelos ares por causa da imprudência de um senhor porco – de anéis no dedo e metido a sebo – que acendia um charuto enquanto abastecia seu carro conversível.
E se não eram esses livros, eram os fascículos (comprados em banca de jornal e depois encadernados) que traziam os contos clássicos da Disney em quadrinhos ou as incríveis histórias da Revista Recreio, cujo lema no início da década de 1970 era “Leia e pinte. Recorte e brinque”.  Editados pela editora Abril, cada número da Recreio trazia um ou dois contos, geralmente escritos por feras como Sonia Robatto, Ruth Rocha, Ana Maria Machado e Joel Rufino dos Santos, acompanhados pelas ilustrações de desenhistas geniais como Waldyr Igayara, Izomar Camargo Guilherme, Renato Canini e Brasílio da Luz.
Da Revista Recreio se aproveitava tudo: as folhas centrais que depois de recortes, dobras e colagens se transformavam em incríveis brinquedos de papel; o brinde encartado no fascículo (que podia ser um brinquedinho singelo de plástico ou até sementes para plantar no vaso); as páginas com ilustrações sem colorido feitas para o próprio leitor pintar como quisesse, e até as abas de cada folha, que apresentavam as mais diversas atividades. E, claro, as sensacionais histórias que incendiaram a imaginação das crianças da década de 1970 e as tornaram muito mais felizes. Aliás, não só daquela década, porque muitas dessas histórias, que naquela época eram vendidas em bancas de jornal por alguns cruzeiros, hoje podem ser compradas em livrarias por vários reais (e por poucas pessoas).  Se atualmente tais histórias se revelam em papel plastificado de altíssima qualidade, com projetos editoriais ricamente elaborados e ilustrações que até parecem obras de arte, garanto que a apresentação gráfica simples, o papel comum e as ilustrações cheias de cor, mas sem rebuscamentos (feitas justamente para ajudar a contar aquelas histórias) cumpriam muito bem sua missão de instigar, divertir e iluminar almas novas e sedentas de vida e de sonho.
Assim, quando eu me via diante do mundo branco de sulfite, meu coração se acelerava: com minhas canetinhas coloridas eu fazia desenhos em cada página e depois voltava colocando os textos que acabariam por formar pequenos livros de histórias.  Histórias que eu sonhava que fossem como as da Revista Recreio ou as dos livros finos de letras grandes e pretas. Mas nem que não fossem: o importante era contar histórias, brincar de Deus, criar do nada ou recriar o imperfeito.
Cada vez que retirava meu pacote precioso de dentro da gaveta e me emocionava com as folhas em branco, eu podia me espalhar pelo mundo conhecido ou até mesmo fazer outros. Novos. Remundos.
Cada vez que as canetas coloridas rabiscavam minhas histórias desvairadas com seus desenhos encapengados, sentia que de alguma forma eu podia rearranjar os caminhos sofridamente tortuosos de meu pai, para que seus pés libertos nunca mais deformassem seus sapatos.
Para que meus pés libertos encontrassem caminhos nunca antes imaginados.

Ilustração: Maria Luziano – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 4/12/2016



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