quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Desmemórias (segunda parte - final)

(caio silveira ramos)

Fui atrás do velho Cabral na internet e descobri uma entrevista sua, de 2011, para o programa Roda Viva, da TV Cultura. Nela, ele diz que considerava seu filho (naquele momento, já no segundo mandato) o melhor governador que o Estado já tivera. Que ele pegara o Rio em frangalhos e rapidamente o transformara na unidade da Federação que mais recebia investimentos. E que a violência estava sendo combatida com muita competência. E que as finanças estavam de tal forma “arrumadíssimas” que o Rio teria sido o primeiro Estado brasileiro a ser reconhecido “por essas agências internacionais que dão nota aí”.  Alguém mais sarcástico poderá dizer hoje: ou o Rio estava bem mesmo e em poucos anos Cabral filho foi tão corrupto e mau administrador que arrebentou o Estado ou o Alzheimer já em 2011 tentava fazer seu pai não ver a realidade.
Esse alguém também poderá perguntar se o pai não teve influência decisiva sobre o (mau) caráter do filho. De fato, me incomodo um tanto ao descobrir que o velho Cabral se orgulhava de ter nomeado o filho seu chefe de gabinete, quando fora vereador na cidade do Rio, na década de 1980.  Nepotismos à parte, ainda prefiro ver o escritor não como um deformador do caráter do filho (até porque a responsabilidade é pessoal do ex-governador que, cá entre nós, já é bem grandinho), mas como um sério pesquisador e escritor que teve influência decisiva na minha paixão pela música brasileira e pelas palavras ligadas a ela.
Mas continuando a passear naquela entrevista de 2011, me deparo com uma descoberta pungente, que talvez explique o porquê de um pai costurar sua mente na invenção da morte de um filho ainda na infância:
No começo da década de 1970, Sérgio Cabral pai estava hospedado em um hotel, na cidade de Campos, Estado do Rio de Janeiro, quando recebeu um recado de sua mulher: o jornalista devia, urgentemente, entrar em contato com ela. Durante quarenta minutos, enquanto não conseguia telefonar para a esposa, seu pensamento girou desesperado: ele e a família moravam no bairro do Leblon, bem próximo da praia. O dia estava lindo: com certeza um dos seus meninos (um de 5, outro de 6 e o mais velho de 7 anos) tinha morrido afogado.  Mas qual deles? Qual deles? Quando finalmente conseguiu falar com sua mulher e ela lhe disse que o Exército tinha invadido “O Pasquim” e estava atrás dele para prendê-lo, Sérgio simplesmente respondeu: “ai, que alívio!”.
Quem sabe, no aqui e ali de sua mente perdida, o velho Cabral se alivie um pouco ao se encontrar de repente com a flauta de Pixinguinha ou com a batida do surdo da Estação Primeira de Mangueira.  Mas fora disso, enquanto vai dizendo adeus ao ano novo, ele talvez insista em existir apenas naqueles quarenta minutos traumáticos de angústia e medo: Serginho, seu amado filho mais velho, morreu naquele dia afogado no mar. Não em um mar de lama. Mas num mar daqueles de Caymmi, feito de poesia, mistério, morte e doçura.
E naquele mar, morrendo junto, ele parte em busca de seu menino.

Ilustração: Maria Luziano– cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 15/1/2017





Um comentário:

  1. Dois textos (parte I e II) dignos que serem mostrados em aula, exemplos de crônica bem feita. Um suspiro reflexivo.

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