quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Desmemórias (primeira parte)

(caio silveira ramos)


O ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, foi preso sob a acusação de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.  Cabral, que segundo o Ministério Público Federal seria o chefe de uma verdadeira organização criminosa, teria recebido milhões em propina para fechar contratos públicos, como o da reforma do estádio do Maracanã. Isso, sem falar (também de acordo com o MPF) na compra de joias caríssimas (que teriam servido para lavagem de dinheiro) e de sua ligação criminosa com o empreiteiro Fernando Cavendish, que, ao lado de Cabral, de secretários estaduais e de um conselheiro do Tribunal de Contas, participou na Europa da chamada “Farra dos Guardanapos”.
Assim que o ex-governador foi preso, pensei imediatamente em seu pai, o jornalista Sérgio Cabral, fundador e editor do lendário “O Pasquim”. Sempre admirei o velho Cabral por seu espírito bonachão e carioquíssimo. Mas o que de fato me liga a ele é a paixão avassaladora pela música brasileira.  Mais do que isso: muito dessa paixão eu devo a Cabral: por meio de seus artigos, crônicas e livros eu me deixei (e me deixo) embebedar ainda mais de samba e de choro.   Li e reli seus livros sobre Elizeth Cardoso, Tom Jobim, Almirante, Ary Barroso, Ataulfo Alves, Nara Leão, as Escolas de Samba do Rio de Janeiro e, principalmente, me encantei com sua fundamental obra narrando a vida e a arte do meu querido São Pixinguinha.
Logo constatei que a preocupação com Sérgio Cabral pai não era somente minha. O escritor Ignácio de Loyola Brandão escreveu, no jornal “O Estado de São Paulo”, a crônica “Diante da situação tenebrosa, a notícia ruim é bênção” em que ele se pergunta o quanto o velho Cabral estaria “pensando e sofrendo com este show de horror com que o filho brindou o Brasil”.  Consultando escritores amigos como Antônio Torres e Ruy Castro, Brandão nos informa que há cerca de três anos Sérgio Cabral está doente e que, segundo Ziraldo, “as névoas do Alzheimer se insinuaram, mas provavelmente se acentuaram quando Sérgio sentiu a realidade. Seria uma forma de negá-la? Hoje, ele já não distingue o que é e não é, não identifica quem é. Mergulhou no escuro total, a memória dissolvida”.   Seguindo esse caminho, mas esquecendo-se de qualquer poesia, Maurício Lima escreveu em uma nota crua para o Radar On-Line da Veja.com: “o jornalista Sergio Cabral, pai do ex-governador do Rio, está com Mal de Alzheimer. Quando perguntado sobre o que aconteceu com seu filho, preso na operação Lava-Jato, ele responde que o menino morreu ainda criança”.
O que explicaria um pai enganchar sua desmemória na construção da falsa morte de um filho pequeno?
Pois numa entrevista do velho (mas feliz) ano de 2011, esbarrei nas voltas da memória perdida daquele escritor que se esqueceu de seu mundo e de suas histórias. E acho que encontrei a resposta.


Ilustração: Maria Luziano– cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 1º/1/2017

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