sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Chocolate afetivo

(caio silveira ramos)


Meu pai resolveu fazer um curso em Campinas aos sábados. Acho que era algo relacionado a uma de suas paixões, a Linguística.  Mas saía tão cedo de casa para ir para a rodoviária que, quando eu acordava, ele já tinha partido.
No final do dia, meu pai chegava cansado, mas profundamente feliz.  Ria, contava histórias, enquanto mergulhava um pedaço de pão com um pouco de margarina ou mel na sua xícara de café com leite.
Mas antes, bem antes, assim que eu abria a porta atendendo ao seu famoso assobio, ele me dava uma caixinha de cigarrinhos de chocolate. Ou um tubo de papelão (azul ou vermelho, dependendo da marca), com tampa de plástico, cheio até a boca de pastilhas (também de chocolate) embaladas cada uma em papel alumínio.  Eu dividia os chocolates com minhas irmãs e até guardava alguma coisa para comer mais tarde. E também sobrava o tubo que servia para armazenar pequenas coisas. Ou, arrancados o fundo e a tampa, aquele canudo de papelão ainda podia se transformar numa bela luneta pra ver as crateras do lado oculto da lua.
Eu pulava de felicidade: além do chocolate recebido e do próprio tubo de papelão que viraria um brinquedo, me enchia de orgulho e de importância saber que meu pai tinha viajado até Campinas, feito seu curso e ainda assim conseguira tempo para pensar em mim durante o dia. A ponto de me trazer uma lembrança de tão longe.
Mas lá pelos meus doze, treze anos, num almoço de domingo, quando recordei saudoso os tubos de pastilhas de chocolate e a alegria sentida ao receber presentes trazido lá de Campinas, meu pai estranhou:
“De Campinas? Não... Eu comprava na “Bomboniere” aqui pertinho de casa, quando voltava a pé da rodoviária no final do dia...”
“Da “Bomboniere” aqui da rua XV? Mas eu tinha certeza que o senhor se lembrava de mim lá em Campinas...”
“Eu lembrava, mas o chocolate era daqui. Tem alguma diferença? O chocolate não tinha o mesmo gosto?”
“Tinha, mas... Sei lá...”
Eu conhecia muito bem a “Bomboniere” da rua XV de Novembro (pouco abaixo da esquina com a José Pinto de Almeida) e que ficava bem perto da nossa casa: ela era pequena, mas para mim, mais encantada que a Fantástica Fábrica de Chocolate do Sr. Wonka, não só pelos doces, mas também porque tinha no alto um balcão ondulado, que eu não sabia aonde ia dar e o que escondia. Mesmo ali, no piso inferior, tudo era uma festa para os olhos e para a boca: prateleiras preenchidas por cubos de vidro repletos de balas, chicletes, dadinhos de amendoim, bombons e chocolates. Espetados em tabuleiros de madeira, pirulitos grandes, embalados em papel colorido estampado com caretas engraçadas, ou aqueles pequenos, retangulares, “do Zorro”. E a loja tinha muito mais: pacotinhos de balas de goma (que meu pai tanto gostava), bonecos de plástico de super-heróis, com tampinhas de plástico na cabeça, recheados de dezenas de bolinhas coloridas e doces. Frascos de plástico transparente (daqueles que precisava cortar a ponta com tesoura para tomar o suco doce e colorido que vinha dentro) em forma de revólver ou carrinho. Latinhas ovaladas cheias de balas...  Isso tudo sem contar as caixas de papelão, cada uma com sua tampa de vidro quadrada com moldura de madeira, onde ficavam os salgadinhos vendidos a granel. Ah, e o baleiro grande e giratório, com balas Soft, Kids e aquelas Kleps que eram vendidas em fitas? E os balcõezinhos com dropes, Mentex, chocolates das mais variadas marcas e bonecos da Disney, que esticando o pescoço, guardavam pastilhas “Pez”? E o ovo de chocolate que vinha numa caixa azul que minha mãe comprava para meu pai na Páscoa?
Pois era dali, justamente dali, pertinho de casa, que meu pai trazia os cigarrinhos ou as pastilhas de chocolate. De lá vinham os aguardados tubos de papelão que viravam lunetas.
Às vezes, em nossas conversas, eu fingia uma falsa e exagerada decepção e meu pai ria, me perguntando se eu preferia que ele não tivesse trazido os chocolates. E eu, risonha e dramaticamente, dizia que seria melhor o amargo da verdade que o gosto doce da mentira. E ríamos os dois.
Preciso de um tubo de papelão daqueles. Pode ser azul, vermelho, da marca que for. Não são necessárias nem as pastilhas de chocolate embaladas em papel alumínio. Preciso só do tubo, para retirar a tampa de plástico e o fundo de papelão. Preciso daquela luneta. Ir para janela do escritório e vasculhar aquele passado. Ver o pai chegando da rodoviária carregando seu cansaço.  Trazendo seus livros, seus cadernos e quem sabe o chocolate comprado na “Bomboniere” a poucos metros da nossa casa.
Preciso daquela luneta fantástica com cheiro de chocolate.
E a visão do riso inconfundível do pai.

lustração de Maria Luziano - cedida pela autora

Além do Mirante 4: Revirando

O Jornal teve que virar um pouco suas páginas.
Se virar.
Revirar.
Revirar para reviver.

O Mirante segue. No infinito.




Abandonos

(caio silveira ramos)

Numa tarde de sábado qualquer, fui comer um lanche na padaria com o pequeno.
A tal padaria é daquelas grandes, com vasto balcão para venda dos mais diversos pães e doces.  No lado direito de quem entra, há uma bancada em forma de “u” onde são servidos sucos e refeições rápidas, um bufê com sorvetes “da casa” e um outro com comidas “por quilo”. Por fim, próximas às grandes vidraças, muitas mesas com quatro ou duas cadeiras onde os clientes podem se alimentar calmamente.  E foi nesse setor que nós nos sentamos: ele pediu um misto quente. Eu, um café acompanhado por um pão de queijo na chapa.
O garçom já tinha anotado nosso pedido, quando me lembrei que o pequeno gosta de um suco que fica na geladeira do outro lado do estabelecimento. Avisei que iria buscar seu suco e, tranquilo por conhecer quase todos os funcionários da padaria, o deixei sentadinho esperando seu misto.
Apanhei o suco e me lembrei que Patricia, um pouco indisposta naquele dia, tinha me pedido para levar alguns pãezinhos para casa. Como a fila era pequena e o cheiro do pão avisava que ele tinha acabado de sair do forno, resolvi esperar a minha vez. Só que um pouco antes de chegar ao balcão, uma velhinha muito simpática resolveu puxar conversa com o padeiro, o que fez a compra demorar um tantinho a mais.
Com o pão fumegando no saquinho e o suco do João nas mãos, contornei o bufê e fui em direção a nossa mesa. Chegando perto, percebi que o pequeno, ainda que sentado, estava virado para trás, com certo ar apreensivo.
“Tudo bem, filhinho? Seu misto já chegou... Não precisava ter me esperado. Frio, o sanduíche não fica tão gostoso.”
“Você demorou, papai...”
“Me lembrei que precisava comprar pão pra sua mãe e resolvi não deixar pra saída: vai que a fila aumente...”
“Fiquei pensando, você indo embora, me deixando aqui...Aí chegando em casa, você e mamãe comemorando...”
Então, durante meio segundo, sensações tão opostas se achegaram em mim misturadas, reviradas, sobrepostas: uma vontade de gargalhar do absurdo. Gargalhar por me deparar com o pequeno imaginando uma situação impossível diante de um amor absoluto. Eu queria rir, rir da graça daquela fala inocente, das cenas descabidas em que eu tentava me ver em seu pensamento. Como, como podia sequer passar por sua cabeça que tal disparate pudesse acontecer? Era tudo tão engraçado! Mas de repente, ao mesmo tempo, o riso me escapava e brotava o nó na garganta, a necessidade do choro calado. Pois não tinha, de fato, passado na mente do filho aquilo que para ele não era um disparate? De onde, de onde surgira aquele medo, mais que isso, a promessa irremediável do abandono? De que fato, de que gesto, de que palavra aquela sensação surgira para roubar seu sossego?  E a dor, a dor genuína, sem lágrima, sem grito, cruelmente bordada ainda pela espera infinita?
“De onde você tirou essa ideia maluca? Ah! Tá aqui seu suco...”
Ele repetiu mais ou menos o que já tinha falado: parecia até que a sensação ruim fora esquecida ou perdida no meio do queijo derretido do misto quente:
“Então...ah, sei lá, você indo embora...vocês comemorando...Abre o canudo pra mim, por favor?”
Retirei o canudo de dentro da embalagem plástica que escorregava na sua mão e coloquei dentro da caixinha do suco. Sorri para o jeito todo dele de dizer “por favor” e “obrigado” e provoquei:
“Se passasse mais um tempo e o papai não aparecesse, você iria comer o sanduíche antes de me procurar no outro lado da padaria ou deixaria ele aí?”
“Eu deixaria o sanduíche aqui”.
“E se fosse um “cookie” ou um bolo de chocolate quentinho lá da loja da esquina?”
Ele pegou o suco e, enquanto sugava pelo canudo, olhou para mim. Então, riu, quase engasgando. Tirou o canudo da boca, engoliu o suco e abriu um sorriso grande, rindo, rindo.
Eu ri também: a alegria estava de volta.
Mas escondido em algum canto sei que dorme um temor desconfiado.
Desconfiado dos abandonos que a vida teimosamente insiste em repetir.

Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 24 de setembro de 2017

Conexões

(caio silveira ramos)

Brontops Baruq é um dos grandes autores brasileiros modernos.  Avesso à fama, ele possui uma identidade secreta como o Bruce Wayne do Batman.  Mas não faz isso por ser enjoado. Faz por modéstia. Mesmo assim, já é famoso nos círculos da literatura de ficção-científica, ainda que se dê bem escrevendo em qualquer gênero. Além de ser um magnífico desenhista.
Conheci Brontops olhando o verso de umas fotos de viagem: para cada imagem captada pela câmera, ele ilustrava a situação que a gerara, a história por trás daquela fotografia, e tudo se tornava ainda mais interessante. Depois ilustrou um continho meu. E enfim, descobri que ele também escrevia e tinha – talvez fruto de uma bagagem de conhecimento profundo, que não excluía nem a “cultura pop” – uma criatividade espantosa.
Não sei o porquê, mas enquanto escrevia uma série de três crônicas intitulada “Não sou de briga”, para o “Mirante dos Infinitos”, pensei em dedicá-la ao Brontops. Estranho isso, porque ele é uma pessoa pacífica, tranquila, avessa a se meter em qualquer polêmica.  Talvez tenha pensando nele porque as crônicas, para ilustrar as situações narradas, fizessem menção a séries e desenhos dos anos 1980, assuntos que Brontops domina também.  Mas provavelmente não era esse o motivo, pois é difícil encontrar algum assunto que Brontops não domine. E sempre sem qualquer pingo de afetação ou pretensão.
A razão da homenagem talvez fosse uma perda recente na vida da identidade secreta de Brontops, mas como a dedicatória não combinaria com o título da série – o que teria a ver “Não sou de briga” com a tristeza de uma partida? – resolvi não fazer nas crônicas qualquer menção ao seu nome.
Mas assim que acabei de enviar ao Jornal a terceira e derradeira parte da série, encaminhei a Brontops as duas primeiras crônicas, revelando minha intenção inicial de dedicar a ele aqueles textos. Brontops achou graça, fez alguns comentários sobre o enredo e acabei me despedindo dizendo que assim que fosse publicada, eu encaminharia a terceira parte por e-mail, para que ele, pelo menos, pudesse apreciar as ilustrações da incrível Maria Luziano.
A última parte enveredava por caminhos estranhos ao enredo das crônicas anteriores e tratava do conflito terrível de um eu-menino que, para reforçar as desculpas de um malfeito contra um amigo, acabava por se desfazer de um querido carrinho de bombeiros, ainda que isso provocasse algum arrependimento.  Publicada a crônica, a encaminhei ao Brontops, que me respondeu: “eu tenho esse brinquedo!”. E alguns dias depois, para comprovar, ele me enviou o tal carrinho de presente.
E ali, diante de mim, estava um brinquedo idêntico ao que eu me obrigara a dar de presente a um amigo-menino, em 1978: um carrinho de bombeiros “de ferro”, da marca Matchbox, vermelho, com detalhes prateados e com uma escada amarela que subia e descia.
A conexão estava feita: estranhamente, seguindo um caminho tortuoso, a crônica que imaginei dedicar (sem saber por qual razão) ao escritor Brontops, revelava enfim suas intenções.  Ela era veículo de uma amizade entre meninos.  Meninos novos, meninos velhos.
Meninos eternos.

Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 9 de setembro de 2017

Desvaidade (primeira parte)

(caio silveira ramos)


Foi então que a cachorra Nina deu para roubar um pé do meu tênis de dentro do armário e sair correndo para se esconder pela sala, cheirando, cheirando o calçado, tirando a palmilha interna, roendo as pontas dos cadarços.  Ela que sempre tivera exclusiva atenção para com os chinelos da sua Escolhida, respirando, mordendo, roendo suas tiras. E assim, por amor, estraçalhou cinco mimosos chinelos: velhos, novos, novíssimos, das mais variadas estampas e cores. Os chinelos da sua Escolhida. Os sabores da sua Escolhida.
Desde pequena, assim que entrou em casa, ela fez a sua escolha. E, daí para frente, o colo mais procurado, o abraço mais aconchegado foram sempre os da Escolhida. E os olhos mais fechados? E a cabeça erguida para oferecer o longo pescoço aos mais doces afagos? Sempre foram para a Escolhida. É pela Escolhida que ela espera sentada tristonha sobre as almofadas da cadeira de balanço. É pela Escolhida que ela se posta companheira ao lado da cama quando alguma dor de cabeça ou resfriado se abriga no corpo da amada. É pela Escolhida que ela late vigilante para o invisível quando qualquer mistério flutua pelo ar. E são da Escolhida os chinelos e sapatos que ela assalta para explorar seus sentidos. 
Para mim ela sempre latiu festiva na minha chegada. E sempre se deitou de barriga para cima com o rabo balançando com força para receber o carinho especial na mancha branca sobre o peito. E alegreassustada rodou pelos quarteirões comigo a levando pela coleira. Em mim, Nina sempre chegou com sua bola e seus outros brinquedos para que eu os atirasse e ela me trouxesse novamente.  E se o jogo da TV tem 90 minutos mais o intervalo, por 90 minutos (e durante o tal intervalo) ela sempre esperou ansiosa que eu arremessasse seus brinquedos. Ou me provocou com a pata, enquanto eu tentava acompanhar o ataque do meu time, pedindo que eu jogasse mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez, a bola, o osso, o urso, o mundo. E ela sempre me trouxe tudo de volta. Se para ela sua Escolhida sempre foi o sol, eu até agora fui um dos seus brinquedos. Eu estava ali, entre a bola de travas de borracha e um pinguim de pelúcia já surrado.
Então, depois das minhas curtas férias, Nina abandonou os chinelos da Escolhida e encontrou meu velho tênis.
Me envaideci todo: a Escolhida podia até ser ainda seu sol.
Mas agora, todo cheio de mim, eu já podia me sentir quase uma lua crescente.

Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 13 de agosto de 2017

Desvaidade (segunda parte - final)

(caio silveira ramos)


Quando a cachorra Nina, depois de abandonar definitivamente os chinelos de sua Escolhida, resolveu se esconder pela casa com um pé do meu velho tênis (usado incansavelmente durante minhas curtas férias), me enchi de vaidades.
A primeira coisa que pensei foi que ela queria me sentir por perto durante minhas ausências. Ela não podia me perder enquanto eu estava no trabalho: precisava sentir minha presença, minha proteção, reter na memória meu carinho, colher nos seus sentidos minha essência.
Depois fui além: na verdade ela assaltava meu tênis como quem vasculha os bolsos da pessoa amada: precisava saber por onde eu andava, com quem falava, por quem eu acelerava o coração.  Estariam minhas mãos se espalhado em mil outros afagos? Estaria eu em caminhos perdidos, acarinhando vira-latas sem conta? Ou mesmo fechando os olhos ronronantes de gatas extraordinárias? Por ciúme (e me envaideci muito mais pensando assim), ela procurava respirar minha vileza, desconstruindo meu velho calçado.
Então, enquanto me preparava para o banho após uma exaustiva jornada de trabalho, me dei conta de que estava totalmente errado. Olhando os sapatos que tinha usado o dia todo, fui invadido pela desvaidade: se Nina procurasse realmente absorver minha presença, se ela se enciumasse por meus supostos descaminhos, ela fugiria com aquele par de sapatos, não com o pé de um tênis usado durantes as férias ou em algum passeio no final de semana.
Nina pouco se importava comigo. Como sempre fizera, ela, generosa, continuava a me emprestar um pouco de seu carinho na minha chegada. Ou sua euforia para um breve passeio noturno em volta do quarteirão. Ou até sua alegria para apanhar a bola que minha exaustão arremessava pela sala.  Meu pé de tênis roubado não servia para que ela se lembrasse de mim. Servia para que ela pudesse alimentar seus sonhos de aventuras.
Ela queria trilhar meus caminhos, mas não por mim, e sim por ela e por sua Escolhida.  Nina queria era descobrir os lugares por onde eu andara nas férias ou nos finais de semana para sonhar com eles: ela queria todos os cheiros, os gostos, os olhares. Queria sentir o perfume do gramado onde eu jogara bola com o João Pedro, a poeira dos parques caminhados, o sabor do filé à parmegiana saboreado em Itu. Talvez até tivesse se enamorado pelo cachorro grande e forte dos meus sobrinhos que moram lá em Vinhedo: meu tênis, o cupido daquele amor canino platônico.
Quem sabe, mais que tudo isso, ela quisesse apenas saber por onde passeara sua Escolhida (que deixara os chinelos em casa durante as férias). Meu tênis seria seu informante. O confidente que revelaria os passeios de sua Escolhida, seus descansos, seus risos, sua alegria.  Meu tênis, que tinha se beneficiado do brilho e calor do sol. Do sol que era a sua Escolhida.
E resignado com o retorno a minha insignificância, feito lua minguante, fui de meias até a sala, onde Nina me esperava para que eu arremessasse sua bola de borracha. 
Eu, apenas mais um de seus brinquedos.

Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 27 de agosto de 2017

Não sou de briga (primeira parte)

(caio silveira ramos)

Detesto violência. Abomino a tortura, o tapa, o grito. O ganhar no berro ou no muque. O convencimento pela brutalidade.
Certo que na infância brinquei de mocinho e bandido.  Fui Robin Hood com arco de cabide e flecha com ventosa de borracha na ponta. Zorro de espada de plástico. James West com revólver de espoleta de rolinho. Batman com punhos que faziam sock, crash, splatt. zlopp e pow! Também derrubei os muros de madeira do Forte-Apache e, fantasiado de Tarzan com shorts de elástico na cintura, me atraquei com os mais famintos crocodilos. Brinquei, sonhei e tornei a brincar. Mas as brincadeiras e os sonhos não me tornaram violento nem defensor de truculências. Muito pelo contrário: as “lutas” da infância me ajudaram a discernir o certo do errado. O bom do mau.  O Thor do Loki. E me ensinaram muitas vezes a encontrar a justiça e não a brutalidade. 
Confesso que tive sorte de não ter sofrido a violência do bullying e nem mesmo ouvido um ameaçador “me espere na esquina”.  Mas nunca fugi dos bons combates, mesmo que esses tenham ficado apenas no campo das ideias e das palavras.
Desconfio, porém, que assim como a Clarice Lispector de “A mulher que matou os peixes” contei toda essa história de menino comportado e pacífico para tentar marotamente me justificar por dois terríveis atos de violência física que pratiquei contra – e isso é o mais assustador – dois queridos amigos.
O último caso aconteceu em 1988, num intervalo das aulas do 3º colegial.  Atribulados pelas provas finais e pelo vestibular que se aproximava ameaçadoramente, aproveitávamos o pouco tempo de folga para jogar conversa fora ou alguma pelota pra dentro da rede.
Foi num desses intervalos que, ao pular para fazer o arremesso em direção à cesta de basquete, meu joelho bateu forte no queixo do Chicão Totti, que justamente tentava se erguer após perder o equilíbrio durante a disputa da bola.  Não sei se consegui fazer o ponto: só ouvi um “creque” e vi o colega colocar a mão na frente boca. Fui socorrer o Chicão e percebi que ele tinha quebrado parte de um dos dentes da frente.  Fomos até a enfermaria e a escola o encaminhou para um dentista.
Enquanto, desolado, eu esperava sua volta, correu o zum-zum-zum pelo colégio:       “briga-feia-Caio-e-Chicão-mas-eram-tão-amigos-deve-ter-mulher-no-meio-quebrou-dois-dentes-tem-certeza-que-foi-ele?-tenho-eu-vi-tudo-parece-que-a-joelhada-deslocou-o-queixo-também-mas-ele-é-tão-calmo-que-nada!-nervoso-bravo-já-brigou-com-professor-mentira!-que-nada-eu-vi-viu-nada-que-foi?-tá-me-chamando-de-mentiroso?-vou-dar-uma-de-Caio-e-quebrar-sua-boca-também!” E por aí a coisa cresceu.
Acho que foi o Xandão – justo o Xandão, amigo do peito, mas piadista em tempo integral –, quem começou a me chamar de “Sawamu, o Demolidor”, dizendo que eu tinha utilizado contra o Chicão o “salto (ou chute) no vácuo com joelhada”, invencível golpe do famoso personagem de mangá e “anime” inspirado no lutador de “boxe-tailandês” Tadashi Sawamura.  De qualquer forma, só ficou a piada e não o apelido, embora o Xandão, sentado ao meu lado, continuasse cantando baixinho e risonho, durante as aulas, o esdrúxulo tema de abertura daquele desenho animado: “e os insetos que vagam pelos charcos/têm poucas chances de alcançar o oceano”.
No final da manhã, o Chicão já estava de volta ao colégio pronto para rir com todos os dentes (inteiros) da história do “Sawamu, o Demolidor”.
Mas no meu canto, deprimido, eu me sentia como um daqueles insetos vagando pelos charcos.

Ilustração de Anderson Diniz - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 2 de julho de 2017

Não sou de briga (segunda parte)

(caio silveira ramos)

Se em 1988, eu (involuntariamente, involuntariamente!!) quebrei com uma joelhada um pedaço do dente do valente Chicão e passei o resto do ano me desculpando (e acho que ainda hoje, se encontrar com ele na rua, vou pedir desculpas de novo. E de novo. E de novo.), dez anos antes também cometi um ato de violência contra um amigo. E o pedido de perdão, ainda que igualmente sincero, não deixou de vir acompanhado de profundas dúvidas.
1978: eu, com seis ou sete anos, como em muitas outras vezes, fui brincar na casa do meu grande amigo Rogério Nakamura. Naquele dia, tivemos a companhia de outro colega do 1º ano, o Fracetto. A tarde foi ótima: jogamos bola, brincamos com dezenas de bonequinhos de personagens de TV, apostamos corridas com carrinhos de ferro em miniatura e inventamos lutas do Super-Homem e de heróis japoneses contra os mais terríveis monstros do Universo. Tudo num clima de paz e amizade.  E sempre acompanhados por um dos irmãos do Rogério, o engraçadíssimo Mauro, que era quatro anos mais velho que a gente.
Na hora da janta, enquanto esperávamos os últimos preparativos da sensacional comida da Dona Marta, fomos brincar na saleta de visita.  Empolgados com as histórias que o Rogério contava sobre o herói da série de TV Spectreman, simulamos lutas contra monstros ferozes e gigantescos que estavam sempre prontos para poluir o planeta. As almofadas das poltronas e do sofá voaram várias vezes.  Nós voamos várias vezes. E de repente, enquanto estávamos lá naquele pacífico bate-não-bate, o Mauro gritou um “agora é pra valer”, talvez temendo uma possível vitória das criaturas de lixo do Dr.Goria.
Mas justamente naquele momento, ainda que sem querer, acertei um poderoso cruzado de direita no rosto do Fracetto. Que abriu o berreiro. E botou a boca no mundo.
Imediatamente, enquanto eu tentava socorrer meu amigo e pedia desculpas desencontradas, apareceram assustados na sala, o pai, a mãe e os dois irmãos mais velhos do Rogério, o Maurício e a Selma:
“Que é que tá acontecendo aqui?”
E o Fracetto chorando alto:
“O Caio me deu um soco e tá doendo!”
“O Caio?!!!”
E o Fracetto chorando mais alto:
“Foi, mas a culpa não é dele! A culpa é do Mauro, que disse ‘agora é pra valer’!”
O Mauro pulou:
“Minha? Eu não fiz nada!!!”
O Rogério botou lenha:
“Foi culpa sua sim, Mauro! Tava tudo tranquilo até que você mandou bater pra valer!”
Dona Marta fechou a questão:
“Mauro, você é o mais velho, tinha que ter mais responsabilidade! Fracetto, vamos lavar esse rosto, olha aí, nem tá vermelho. Depois o pai leva cada um pra sua casa. Isso, já passou, não é? Vamos jantar agora. Mauro, você tá de castigo”.
Naquela noite, enquanto voltava pra casa no banco de trás do opalão vermelho dos Nakamura ao lado do Fracetto (que já parecia perfeitamente recuperado: franzino como era, ele tinha comido quatro pedaços de pizza), eu pensava como minha tarde tão feliz tinha terminado de forma tão amarga. Em poucos minutos, eu tinha ferido dois amigos de forma profundamente diferente: um, com um sonoro soco de Spectreman.
O outro, com uma gritante omissão disfarçada de silêncio.

Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 16 de julho de 2017

Não sou de briga (terceira parte - final)

(caio silveira ramos)


Depois de alguns dias me acertei com o Mauro e pedi desculpas por ele ter ficado de castigo por causa do meu soco no Fracetto.   Se bem que ele me confessou que o “agora é pra valer” significava aquilo mesmo: “agora bate de verdade... Mas de brincadeira, entendeu?”
Entendi mais ou menos. De qualquer forma, aceitei (quem sabe se por remorso?) a proposta do Mauro de trocar meu time de botão do São Paulo pelo que ele tinha do Atlético Mineiro. Me arrependi muito depois: não que eu gostasse do São Paulo, mas os botões vermelhos vinham com a cara de cada um dos jogadores colada. Tinha até o Pedro Rocha, assim como meu Palmeiras vinha com o rosto do Ademir da Guia e de toda a Segunda Academia. Já o time do Atlético Mineiro do Mauro tinha uma parte encaixada que prendia o distintivo de papel no botão de acrílico. Mas a cada chute, aquilo desmontava e a gente perdia o lance todo.  Isso sem contar que meu pai e o Nando gostavam de jogar com aquele São Paulo. Me arrependi, mas troca era troca. E depois, arrependimento por arrependimento, sentia mais pelo castigo do amigo do que ter perdido o botão com a cara do Forlan.
Tudo acertado com o Mauro, agora eu precisava resolver de vez as coisas com minha outra vítima.  Era tempo de férias e eu e meu pai combinamos de ir até a casa do Fracetto para pedir desculpas pelo soco que eu tinha dado no rosto dele durante a tal brincadeira “de mão” que, como a mãe da gente fala, “nunca dá certo”.   O Fracetto já tinha dito que estava tudo bem, mas meu pai queria pedir desculpas pra mãe dele, olho no olho, bem daquele jeito do seu Miro.
Não sei se foi minha a ideia de levar um carrinho de ferro de presente. Acho que foi.  Mas não era só para reforçar as desculpas: a verdade é que eu achava bonito quando via alguém que, visitando outra pessoa, levava alguma lembrança, uma flor, um bombom ou um bolo feito no capricho.  Dona Eva vivia me presenteando com bolinhos de chuva e macarronada.  Tio Amador, toda vez que vinha do Rio, trazia Bala Chita ou Dadinho. Meu padrinho, seu Arlindo, aparecia sempre com um brinquedinho ou um pacote de bolacha. Minha mãe ia além: ela quem dava lembrança pra visita, fosse um livro, um pão feito na hora, um brinquedo que achava que a gente não usava mais. Então, eu é que não podia fugir à regra: já que eu visitar um amigo, uma visita, assim, oficial, com conversa de pai com mãe, sim senhor, sim senhora, precisava também levar uma lembrança.
Eu tinha acabado de ganhar dois carrinhos Matchbox e estava exultante: além de incríveis, aqueles carrinhos de ferro não eram baratos e se você ganhasse qualquer um deles no aniversário podia sair comemorando. E eu tinha recebido dois!
Estávamos ainda na fase de namoro: eles ainda não tinham se misturado com os outros brinquedos e eu não ousava nem sujar suas rodinhas no chão da sala. Passeavam um pouco na palma da minha mão e depois voltavam para suas caixinhas individuais feitas de papel duro.  Assim, novos em folha e ainda embalados, qualquer um deles estava pronto para ser dado de presente para o Fracetto.  Mas qual?
Um era o jipe verde. Na parte de trás ele tinha uma espécie de bazuca de plástico que subia e descia e ainda girava 360 graus. Os banquinhos eram pretos e a armação do retrovisor, feita de ferro fininho, era caprichosamente dividida no meio.
O outro era um carro de bombeiros. Bem mais robusto que o jipe, ele era de um vermelho vivo, com detalhes prateados e uma escada giratória amarela. De cara, escolhi esse para ficar comigo. Mas depois mudei de ideia. E mudei de novo. De novo. De novo.  Uma hora me via com meu jipe verde em mil e um combates contra os mais terríveis tiranos da Terra. Noutra, me arriscava com meu super carro de bombeiros em incêndios medonhos para salvar crianças indefesas.  E de quarta até sábado fiquei naquela indecisão terrível. Já não pensava direito nas desculpas, no almoço, nos outros brinquedos: dia e noite era só aquela matutação sem fim.
Lá pelas tantas me arrependi daquela minha ideia de presente. Poderia fazer simplesmente assim: eu iria lá na casa do Fracetto, meu pai falaria com a mãe dele, desculpas, desculpas, tchau e bença.  Depois podia até convidar o amigo pra brincar em casa com os carrinhos, mas abrir mão dos meus brinquedos tão bacanas... Não, não podia fazer aquilo, já tinha falado com meus pais, que gostaram da ideia. E o Fracetto era um amigo muito legal, merecia o presente. Acho até que ele nem tinha um carrinho de ferro.
E sábado de manhã, lá fui eu com meu pai na casa do amigo. A conversa foi boa, a mãe dele agradeceu, mas disse a meu pai que ele não precisava ter se preocupado: ela me conhecia etc e tal. Já o Fracetto e seu irmãozinho pularam de alegria quando viram o carro de bombeiros com seu vermelho vivo, seus detalhes prateados e sua escada giratória amarela. 
Presente era presente: achei que devia dar o mais bonito.
Ou no fundo, no fundo, a opção revela toda a verdade: eu não passava de um violento brigão que tinha escolhido um jipe com uma bazuca que subia e descia e girava 360 graus. Um jipe de guerra para um espírito mirim belicoso.
Pode ser, pode ser.
Mas de vez em quando eu ainda sonho com aquele carrinho de bombeiros. 

Publicada no Jornal de Piracicaba em 30 de julho de 2017

A glória de um farol

(caio silveira ramos)

Por que, de repente, os olhos verdes se encheram de tristeza?
Não que os olhos verdes não tenham o direito de se entristecer: estamos em dias difíceis, de desilusão e de lutas aparentemente perdidas.
Mas justamente por lutar tanto a vida inteira que ainda esperamos que os olhos verdes retomem sua alegria.  Onde estarão guardadas tantas batalhas, perdidas, vencidas, mas bem combatidas?  Onde estarão recolhidas suas visões de presente e futuro?  Será que os olhos verdes se anuviaram justamente porque deixaram de ver o que virá? Ou será que é justamente uma antevisão assustadora que os amedronta?
E nós, temos o direito de pedir a ressurreição de sua alegria? Estaríamos sendo egoístas por que precisamos dessa alegria e simplesmente não conseguimos viver sem a força que dela brota?
Os olhos verdes estão tristes. E talvez, sabendo do desalento que sua tristeza provoca em nossa vida, se sintam ainda mais desgostosos: tal responsabilidade deve pesar infinitamente sobre suas pálpebras.
Os olhos verdes se dizem fracos. E por se sentirem fracos, têm medo de andar pelas ruas sozinhos e precisam de outros olhos fraternos (e eles são muitos) para conduzí-los.  Outros olhos que ainda se alimentam da força avassaladora que os olhos verdes emanaram a vida inteira.
Mas eu sinceramente acho que os olhos verdes não estão fracos: estão apenas com um pouco de medo. Pois a chama e a inquietude dos olhos verdes não se apagaram: continuam lá, instigando, provocando, se digladiando com a apreensão que tenta arrancar suas forças. 
Há de haver colírios que derramem a tristeza para fora dos olhos. Colírios desenvolvidos pela mais avançada medicina para afastar depressões profundas ou amarguras superficiais. Ou mesmo devem existir terapias, mandingas, exercícios e luzeiros extraídos de filosofias heterodoxas que afastem fantasmas e sombras. E a cura virá.
Egoísmo nosso ou não, precisamos que os olhos verdes retomem sua alegria, mesmo que haja o risco de que essa responsabilidade lhe pese ainda mais sobre as pálpebras: que nossa necessidade não seja peso, mas sustentação que mantenha os olhos verdes acesos: que sua luminosidade seja nosso farol.
Farol verde que nos abre passagem e nos serve de guia no mar revolto e nas noites de tormenta.
Que seu brilho nos preencha com sua glória.

Ilustração de Anderson Diniz - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 18 de junho de 2017